Impressões de Viagem


Aforismos de mentirinha

117. Ócio

Somos grandes loucos. “Ele passou a vida na ociosidade”, dizemos. “Hoje não fiz nada.” “Como? Não vivestes? É esta não só a fundamental, mas a mais ilustre de vossas ocupações.” “Se tivessem me confiado grandes manobras, eu teria mostrado o que sabia fazer.” “Soubestes examinar e manobrar vossa vida? Realizastes a maior tarefa de todas.” A natureza não precisa de um grande destino para se mostrar e agir. Mostra-se igualmente em todos os níveis, e tanto atrás da cortina como sem ela. “Soubestes compor vossa moral? Fizestes bem mais que aquele que compôs livros. Soubestes conquistar o repouso? Fizestes mais que aquele que conquistou impérios e cidades.” A gloriosa obra-prima do homem é viver como convém. Todas as outras coisas: reinar, estesourar, construir, não passam de apendículos e adminículos, no máximo.

Montaigne, Os Ensaios (Livro Terceiro), 1588.

 

 



Escrito por por André Tezza Consentino às 16h56
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Aforismos de mentirinha

116. Humanidades

O saber das humanidades está se perdendo? Não é de se admirar que o sujeito técnico-científico passe vergonha quando tenta especular em outras áreas que não a sua. Os discursos humanistas de Steve Jobs ou de Miguel Nicodelis são banais – ou a autoajuda mais simplória (a crença que cada um é o único responsável pelo seu destino – o que é quase sempre mentiroso, somos fruto dos outros e daquilo que está além de nós o tempo todo) ou o edificante nacionalismo dos heróis que tanto dava gosto às aulas de história durante o regime militar. Mas será este um problema somente do pensamento científico que se trancafiou nos laboratórios e se esqueceu da vida? As profundas novidades que dizem sobre as novas gerações (como se fosse um novo ser humano!): as mesmas pessoas que escrevem os best-sellers do nosso tempo são as que desconhecem completamente a cultura dos clássicos. Leia um dia Os Ensaios e veja se você é mesmo assim tão diferente do homem de 500 anos atrás só porque tem um i-phone.



Escrito por por André Tezza Consentino às 17h56
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Aforismos de mentirinha

115. Miniaturas de viagem

O fascínio do mapa é o fascínio da miniatura. A miniatura é dar à complexidade do mundo a escala humana, a escala inteligível, a escala que pode dar conta de pronto. Entre as miniaturas, a beleza indócil, as que trazem à escala do compreensível aquilo que originalmente é abstrato, projeto inacabado de forma e tempo. A viagem é miniatura da vida — há plano, há roteiro traçado, há fim melancólico e inescapável. E que graça maior é o inesperado.



Escrito por por André Tezza Consentino às 15h50
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Aforismos de mentirinha

114. Econiilismo lógico II

Imagine, imaginar não dói: há alguns bilhões de anos, numa galáxia distante, existiu um planeta em que a vida floresceu. E, milagre dos milagres, também neste planeta a civilização, também a vida racional. Imagine agora a civilização extinta – não importa se o eventual esfriamento de um sol, não importa se a inexorável irracionalidade da vida racional. Responda verdadeiramente: se história verdadeira num passado infinito, meu amigo ecologista, algum sentimento de remorso, de tristeza, de melancolia? Ou simplesmente a dança do universo, o fim como o eclipsar da lua no nascimento do sol? A ecologia só faz sentido como metafísica – é por isto que é um discurso furiosamente religioso (eis a salvação!). O sábio humorista já dizia: ciência e religião distintos só em teoria.



Escrito por por André Tezza Consentino às 17h39
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Aforismos de mentirinha

113. Econiilismo lógico

Premissa não tão niilista assim e nem tampouco absurda: a única forma de salvar o planeta é não salvar a espécie humana — só aos humanos interessa salvar os humanos. O modo mais rápido para exterminar a espécie humana é ignorar a sustentabilidade. Logo, para salvar o planeta, ignore as normativas ecológicas. No futuro, o mico leão dourado agradece, acredite.



Escrito por por André Tezza Consentino às 12h57
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Aforismos de mentirinha

112. Palavras

Em grande parte, para os outros, somos aquilo que fazemos com as palavras.



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h15
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

111. Vocação: judeus incomodam

Há cerca de 100.000 judeus no país – é uma comunidade de imigrantes praticamente inexpressiva. Se? Se comparada com a comunidade italiana, alemã, japonesa, árabe, espanhola, enfim, bem mais gente. Inexpressiva? A melhor livraria do país, a Livraria Cultura, é de um judeu.  A mais prestigiada editora do país, a Companhia das Letras, é de um judeu. A maior e melhor biblioteca privada do país pertenceu a um judeu. Clarice Lispector, Bernardo Ajzenberg, Moacyr Scliar, Nelson Ascher, Otto Maria Carpeaux, muitos, mas muitos etc mesmo; a lista, mesmo pensando somente em literatura, é enorme. Meu amigo antissemita: ainda bem que há judeus no país.



Escrito por por André Tezza Consentino às 11h14
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110. Politicamente correto II - o moralismo cívico como grupo dominante


"A literatura pode formar o leitor, mas não segundo a pedagogia oficial, que costuma vê-la ideologicamente como um veículo da tríade famosa, – o Verdadeiro, o Bom, o Belo, definidas conforme os interesses dos grupos dominantes, para ser reforço da sua concepção de vida. Longe de ser apêndice de instrução moral [...],ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa, como ela - com altos e baixos, luzes e sombras".

Antonio Candido, A literatura e a formação do homem.

 

 



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h31
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109. Politicamente correto

Vamos bater palmas, clap, clap, clap: o Conselho Nacional de Educação chegou à conclusão de que o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, deve ser proibido das escolas brasileiras. O livro é, segundo o Conselho Nacional de Educação, racista - Monteiro Lobato  chama Tia Nastácia de "preta" e a caracterizaria de modo pejorativo. Então, olha só, eu sugiro que o Conselho Nacional de Educação também proíba Shakespeare e Dostoievski, não só porque são brancos machistas, mas também porque, é sempre bom lembrar, são autores que criaram personagens judeus antipáticos e sovinas — realmente não consigo entender como um judeu, Harold Bloom, pode ser tão entusiasta de Shakespeare. Será que ele realmente leu com atenção O Mercador de Veneza? E como será que Dostoievski (será que é mesmo tão bom assim?) teve a coragem de escrever um livro tão antissemita quanto Crime e Castigo? Também sugiro que se proíba a imoral, pagã e odiosa Odisseia, de Homero, afinal é um livro que estimula o alcoolismo, o machismo e o escravagismo. Também sugiro, ao Conselho Nacional de Educação, que se proíba O Apanhador nos Campos de Centeio, um livro que, pasmem, tem um terrível discurso contra a escola, contra a educação — acreditam nisto, acreditam que há um livro que ridiculariza a escola? Um segredo indecifrável: por que será que O Apanhador nos Campos de Centeio fez tanto sucesso? Claro, o Conselho Nacional de Educação entende que as obras de arte são um ferramental didático para a construção de um mundo melhor, o belíssimo discurso da “arte-educação” — boa arte é a arte edificante, aquela que só mostra os homens justos, bons, honestos. A arte do bem, a arte que mostra como poderemos construir um mundo melhor, mais puro, mais “humano”. Arte boa é a arte útil. Aproveitando a ocasião, vamos proibir também os quadros nus renascentistas das escolas, não só porque estão nus, mas também porque apresentam brancos ricos cristãos — onde estão os índios, os negros, os mulçumanos e os judeus? Onde, Jesus do céu, estão os pobres? Para falar a verdade, eu sugiro, para o bem do país, que se proíba a arte como um todo das escolas. Ela é muito perigosa para a educação — com a arte, só vamos repetir o mundo masculino, branco, cristão, rico e europeu. Além disso, a arte, em geral, parece não ter utilidade — o contrário da educação. Ainda bem que a educação brasileira é, como todos nós sabemos, excelente, uma das melhores do mundo, e pode contar com a inteligência do Conselho Nacional de Educação.



Escrito por por André Tezza Consentino às 19h06
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108. O universal e o particular

O sujeito volta de viagem. Visitou a Espanha em 10 dias. Conversou com três pessoas: um garçom, um bilheteiro de metrô e um recepcionista de hotel. Ninguém foi simpático. Conclui (orgulhoso de sua própria conclusão): o espanhol é grosso. Como queríamos demonstrar. O absurdo desta conclusão é a extensão de uma triste patologia da cultura do nosso tempo — aquilo que os frankfurtianos, com muita perspicácia, chamaram de a falsa identidade entre o particular e o universal. O desejo da classificação estatística, de montar modelos prontos do que é o homem, é a tentativa incansável tanto da ciência positivista quanto da racionalidade administrativa: encontrar o universal, isto é, a verdade bíblica do nosso tempo. Nesta tentativa, necessariamente, o particular do homem, aquilo que não se molda à regra, desaparece — por isto mesmo, a lúcida desconfiança dos frankfurtianos de que o positivismo, a racionalidade administrativa e o totalitarismo são primos de primeiro grau. Voltemos ao nosso exemplo. Primeiro, ninguém garante que eram espanhóis. Segundo, todos estavam em profissões das mais terríveis para um europeu: lidar com o turista. Não é de se surpreender que não fossem simpáticos naquele instante. Terceiro, se existe uma alma espanhola, se existe algo universal e verdadeiro a respeito da cultura daquele país, este universal é necessariamente fragmentado, fissurado, complexo e ambíguo — o contrário da classificação estatística, o contrário do questionário objetivo, o contrário dos clichês da cultura do nosso tempo. A própria palavra, o próprio idioma, identidade poderosa e inequívoca de qualquer povo, demonstra isto: não há lugar no mundo em que não existam variações linguísticas: variações entre regiões, entre grupos sociais, entre grupos econômicos, entre grupos políticos, entre profissões, entre toda a diversidade do que é o homem dito espanhol. Mesmo exemplo. Então dizem que a “geração dos anos 60” era mais politizada, mais aberta à compreensão do outro, menos egoísta, menos conservadora. Grande mentira. Uma parte minúscula dos anos 60 foi assim — minúscula o suficiente para não podermos afirmar que uma geração inteira compartilhava universais idênticos. Mesmo que esta parte minúscula tenha movido o mundo (questionamentos múltiplos da autoridade — sexual, religiosa, acadêmica, política), isto não elimina a particularidade dos diferentes, nem elimina um universal muito mais relevante, a modernidade. Modernidade? A marcha da modernidade é a marcha do questionamento da tradição e valorização do indivíduo — não foi a tal geração dos anos 60 que inventou isto, mas os últimos 500 anos da civilização moderna. Picasso, Almodóvar, Manuel de Falla, Cervantes dizem mais sobre as Espanhas do que 10 dias turísticos na Espanha. Olhar a singularidade de cada indivíduo em um grupo de jovens é mais verdadeiro do que admiti-los, na brutalidade da simplificação, que são os jovens da geração Y.



Escrito por por André Tezza Consentino às 20h54
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107. Retrato da alma

Não é muito raro ouvirmos especialistas descreverem o vinho de modo excêntrico — excentricidade que, costumeiramente, para quem não participa das confrarias, é avaliada como atitude esnobe. Mas o que está por detrás dos intricados toques de asfalto e baunilha ou do retrogosto e acidez? A tecnologia permitiu modos convincentes de preservação da memória audiovisual — a fotografia, o vídeo e as gravações de voz são extensões magníficas do olhar e do ouvir. Mas não temos recursos tecnológicos para a memória do paladar e, mais do que isto, para a memória da alma. Todo o jogo de palavras, bem-sucedido ou não, de descrição de um vinho é um esforço de racionalização dos sentidos e memorização do paladar. Parte do sucesso da palavra escrita, ao longo dos séculos, é que, até os dias de hoje, ainda não conseguimos um recurso tão poderoso para, não só a descrição, mas também a memória daquilo que pensamos e sentimos. Em sua constituição ampliada, este recurso nada mais é do que literatura. Literatura é o retrato da alma e, neste aspecto em particular, as outras artes são sombras.



Escrito por por André Tezza Consentino às 21h17
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106. Porque sem porque

Em uma frustrada expedição dos anos 20, com o objetivo de conquistar pela primeira vez o monte Everest, morria o britânico George Mallory. Historiador, Mallory entrou para a história com uma inusitada resposta a jornalistas nova iorquinos que o perturbavam com a pergunta “por que escalar o Monte Everest?”. Na primeira vez que soube do causo, confesso que não entendi o distinto “porque ele está lá” de Mallory e, preconceituoso, associei a afirmação com esportistas que são montanhas de músculos, porém supostamente incapazes de alguma iluminação para a vida. Sim, é verdade, também não sabia que o historiador alpinista era de uma geração inspirada de Cambridge, amigo de famosos do famoso círculo artístico-intelectual Bloomsbury — Mallory era amigo, por exemplo, do economista John Keynes e foi tema de diversas telas do pintor Duncan Grant. Hoje, não que eu saiba muitas coisas a mais — mas o avanço da idade ajuda a, pelo menos, reinventar o mundo —, leio novamente a frase. Desta vez a considero genial. A resposta de Mallory é a mesma que um astrônomo ou um astronauta dariam. É a mesma resposta dos marinheiros ou a dos poetas — Colombo ou Drummond poderiam ter dito isto. A investigação, a insatisfação com o desconhecido, a busca do novo na alma não têm explicação muito boa com o vocabulário da economia, da sobrevivência ou da utilidade — ainda que possam também ter justificativas neste sentido. Um turista que vai a Nova Iorque pode até dizer que vai a Nova Iorque para “ganhar” cultura, experiência, vivência, arte — isto não é falso, mas também não é o principal. Vamos a Nova Iorque porque Nova Iorque está lá. Entramos no mar porque o mar está lá. Um traço fundamental da condição humana é o incômodo — exceto na morte, nunca estamos cômodos no mundo. Se estivéssemos, jamais precisaríamos subir o Everest.



Escrito por por André Tezza Consentino às 22h50
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105. Faxina na alma

Acorda e diz para o espelho: hoje é dia de mudança. Diz que vai fazer faxina na alma, voltar a fazer exercícios, emagrecer, saber lidar com bom humor a adversidade, ler mais. Faz mais de 20 anos que tem o mesmo projeto. E não muda. O problema é que mudar não é somente o simples fruto de uma decisão da razão. Não somos felizes tão somente porque decidimos ser felizes. Não mudamos tão somente porque decidimos mudar. Somos também arrastados por forças que não temos o menor controle - inclusive pelas forças que tentam nos dizer no que devemos mudar. A picaretagem da auto-ajuda é não reconhecer que, naquilo que nos define, não estamos sozinhos no  mundo.



Escrito por por André Tezza Consentino às 08h50
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104. Mulheres

O par Anna e Vrónski é o centro nervoso da obra-prima de Tolstói. Todos os demais personagens, de algum modo, estão no poder de sedução deste casal — inclusive no par mais autobiográfico: Kitty infantilmente se apaixona por Vrónski; Liévin, o alter ego de Tolstói, não fica indiferente aos encantos de Anna. No imaginário masculino, não é difícil entender e explicar por que os homens se rastejam por Anna. Mas quem poderá explicar por que as mulheres se rastejam por Vrónski? Por que o pavão, na definição perfeita do pai de Kitty, é tão sedutor? Anna Kariênina é mais uma obra, em uma longa lista da arte masculina, que tenta desvendar, sem sucesso, o mistério de sempre: o que diabos as mulheres querem? O famoso fragmento de Pascal responde, sem responder, à perfeição: o coração tem suas razões, que a razão desconhece.



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h37
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103. Eis a questão

O que eu seria se eu fosse de verdade?



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h10
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