Impressões de Viagem


Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

42. De Dostoiévski

"(...) E fica-se grato à Rússia também, à Mãe Rússia, por colocar diante de nós com uma certeza tão inquestionável o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menos chance de chegar lá: o padrão do mestre Tolstói de um lado e o do mestre Dostoiévski do outro. Com o exemplo deles somos artistas melhores; e com melhores não quero dizer mais hábeis, mas eticamente melhores. Eles aniquilam nossas pretensões mais impuras; eles esclarecem nossa visão; eles fortalecem nosso braço."

Mais do Coetzee, mais do Diário de um ano ruim... Em tempos de incerteza cultural, é preciso restaurar o valor dos clássicos. Nada poderia sobreviver por tantos séculos, a tantas culturas, a tantas políticas, se fosse simplesmente uma “construção interessada”.



Escrito por por André Tezza Consentino às 10h51
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

41. De J. S. Bach

"A melhor prova que temos de que a vida é boa e, portanto, de que talvez possa existir afinal um Deus, que tem nosso bem-estar no coração, é que para cada um de nós, no dia em que nascemos, vem a música de Johann Sebastian Bach. Ela vem como um presente, não ouvida, não merecida, grátis". 

Estas coisas aí são do Coetzee, Diário de um ano ruim, que é um romance fissurado por pequenos ensaios (aforismos!).

 



Escrito por por André Tezza Consentino às 10h45
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

40. Disputa da Indústria Cultural

Há duas grandes disputas da indústria cultural em tempos de hiperconsumo: a disputa pela memória e a disputa pelo tempo livre. Na disputa pela memória, são as infinitas possibilidades de consumo de referências. Na disputa pelo tempo livre, chegamos numa contradição interessante: sem o tempo livre, o capitalismo entra em colapso — por isto, o capitalismo não pode ser o trabalho sem tempo livre.



Escrito por por André Tezza Consentino às 10h44
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

39. Falta de tempo para a leitura de livros

É absolutamente mentirosa a afirmação de que hoje as pessoas têm menos tempo para ler. Ou melhor: menos tempo para ler “livros”. O problema não é a disposição do tempo livre, mas a concorrência com o tempo do livro. Trinta anos atrás, o livro concorria com, por exemplo, a pescaria. Hoje, a pescaria não é mais o tempo da pescaria, isto é, aquela simples ida a um riacho e pegar meia dúzia de lambaris. A pescaria, hoje, é o tempo de visitar as lojas físicas e virtuais de pescaria, é consultar os milhares de sites de pescaria, é assistir aos programas de TV a cabo de pescaria, é fazer milhares de receitas possíveis com o resultado da pescaria, é comparar e escolher as dezenas de técnicas possíveis de pescaria... O problema não é o da falta de tempo, mas o das escolhas possíveis com o tempo livre.



Escrito por por André Tezza Consentino às 10h41
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

38. Teoria Estética II

É difícil uma teoria estética para o presente pelo menos por dois motivos: a) a indefinição do que é a arte do presente; b) a extraordinária força do pensamento de Nietzsche no mundo contemporâneo: simplesmente desistimos de um universal racional para dar conta de grandes verdades sobre a vida e o mundo. Mas vamos combinar aquilo que a leitura predominante de Nietzsche já combina: o relativismo radical é repulsivo. Desconfiar da possibilidade de verdade é bem diferente de comprar o discurso dos sofistas.



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h31
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37. Teoria Estética

A arte é indispensável. Já a companhia dos artistas, em geral, totalmente dispensável. Adorno falava da violência na criação de uma obra de arte. Mesmo não pensando em vanguarda, sim, a criação é um ato de violência – é aquilo que rompe de algum modo com o estabelecido, aquilo que não caracteriza a simples cópia. O problema é que nem sempre o artista sai impune de sua própria violência. E eis algumas das pessoas das mais insuportáveis.



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h30
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

36. Filhos artistas

Em algum sentido, todos são deficientes. Eu, por exemplo, sou deficiente em música. Jamais conseguirei ser pianista, simplesmente porque não tenho jeito para a coisa. Mas há dois discursos contemporâneos que pretendem dizer o contrário: a) talento é uma questão de perseverança, vontade, gosto; b) é a sociedade que não aceita as diferenças: o indivíduo não é deficiente. Ora, meus amigos, se pudéssemos escolher, todos nós seríamos jogadores de futebol, artistas, gênios – diga lá, quando você está nos seus devaneios, se não é este o seu sonho secreto, como já há muito dizia Freud. Não que a perseverança não seja importante, mas esqueça o discurso romântico na linha de “sonhe o seu sonho”. O mundo seria um lugar bem melhor se os pais proibissem os filhos a ter uma banda, a “sonhar o sonho” – estatisticamente, a chance de alguém não ter talento para a arte é infinitamente maior que o oposto. Aliás, em geral, os artistas que deram certo foram justamente aqueles que foram censurados pelos pais. Em qualquer situação, pelo bem do mundo, proíba seu filho de ter uma banda: se ele for desafinado, o que é provável, aprenderá uma simples verdade cedo, sem causar grandes danos ao mundo e a ele mesmo; se for talentoso, terá que superar obstáculos, o que é bom para o filho, para a arte e para o mundo.



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h24
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

35. Coetzee

Somente um escritor genial pode fazer uma provocação ao darwinismo e à física quântica e ainda assim não ser acusado de idiota pelo leitor. Coetzee conseguiu isto em “Diário de um ano ruim”. Só para lembrar que os gênios existem, ainda que existam aqueles que dirão que eu, desafinado que sou, sou tão bom quanto “qualquer” Mozart. É só uma questão de construção histórica, forças produtivas, ideologia, economia, política, estruturas, semiosfera? Não é não. Eu sou desafinado mesmo. Ruim pacas.



Escrito por por André Tezza Consentino às 09h22
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

34. Elegância

O negão Albert Murray diz algo fundamental: o máximo que um ser humano pode almejar na vida é a elegância. E que elegância extraordinária é a cultura negra das alturas. Quando vejo Usain Bolt correndo com aquela facilidade e aquelas indescritíveis caretas que só os elegantes são capazes, me lembro imediatamente da facilidade e das caretas do duo de Oscar Peterson e Count Basie.



Escrito por por André Tezza Consentino às 08h42
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33. Semana Judaica em Curitiba - Parte IV

Fechando a semana, uma palestra com Howard Gardner. Não sou um fã completo da teoria das inteligências múltiplas, mas é das tarefas das mais importantes apontar a estupidez sem fim que é um teste de QI. Que Mozart, Picasso ou Pelé poderia se dar bem em um teste de QI? Por que somente as relações lógicas e as abstrações são inteligências? Muito do racismo e do sexismo do século XX foi sustentado por meia dúzia de questões inúteis de lógica.



Escrito por por André Tezza Consentino às 13h58
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32. Semana Judaica em Curitiba - Parte III

A Filarmônica de Israel é uma das jóias da cultura judaica porque ela tenta expressar a dificílima tarefa da tolerância – dificílima para todos nós. Tocar Richard Strauss, mais um dos muitos artistas com relações no mínimo constrangedoras com o nazismo, em Curitiba, não deve ter sido fácil para parte da comunidade judaica daqui.



Escrito por por André Tezza Consentino às 13h57
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31. Semana Judaica em Curitiba - Parte II

A Filarmônica de Israel é conhecida por suas cordas, que são de fato impressionantes. Um palpite: música popular. No Brasil, o violão impera em cada esquina em que um malandro tenta seduzir uma mulher. Claro que uma rebarba disso acabou na música erudita: não só o Villa-Lobos das alturas, mas igualmente os violonistas das alturas — eis uma música brasileira que o brasileiro não desconfia que exista. O divertido Klezmer é um dos gêneros judeus mais populares e olhe bem o violino em primeiro plano. Foi um violinista que fundou a Filarmônica de Israel. E o time de violinistas judeus no século XX e XXI é assombroso.



Escrito por por André Tezza Consentino às 13h56
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

30. Semana Judaica em Curitiba - Parte I

A Filarmônica de Israel chega ao teatro escoltada pela polícia. Na entrada, detectores de metais. Durante o concerto, seguranças me observam — sou suspeito? A cena é de uma tristeza sem fim. Não, não compro a ideia de que seria a prevenção da retaliação terrorista possível das ações de Israel contra a faixa de Gaza ou contra os palestinos ao longo do século XX e XXI. Os judeus continuam despertando sobre uma parcela do mundo o mesmo tipo de ódio que é milenar e é muito anterior ao Estado de Israel. E minha desconfiança é que este ódio também não é o ódio religioso – não é aquele ódio “porque os judeus recusam a figura de Cristo como o filho de Deus” ou “porque eles se dizem escolhidos” (que religião realmente afirma que não é “a” escolhida de Deus?). Não: o problema que os judeus suscitam é a sua filiação à razão e à cultura. Grosso modo, não é muito diferente daquele conhecido ódio que o grupo escolar médio tem da criança ou jovem que se mostra hábil na astúcia da razão. Afinal de contas, é absurdamente impressionante que um povo que não tem mais de 12 milhões de pessoas tenha ganhado 25% de todos os prêmios Nobel. Quantos fundadores de novas ciências, artes e saberes não são judeus? Que influência colossal nomes como Einstein, Marx, Freud, Hobsbawm, Joyce, Morin, Pessoa, Schoenberg, Adorno, Arendt, Benjamin, entre tantos outros, não tiveram sobre o século XX e o presente naquilo que ainda podemos chamar de ocidente? Fez muita diferença naqueles 1.000 anos de Idade Média que os judeus fossem alfabetizados e os cristãos não.



Escrito por por André Tezza Consentino às 13h55
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

29. Assino embaixo II

http://www.youtube.com/watch?v=IOkgwN1BlE8



Escrito por por André Tezza Consentino às 08h42
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Aforismos de mentirinha, polêmicas ao vento

28. Assino embaixo

"Recenemente, visitei o Castello de Rivoli, perto de Torino. É uma antiga residência régia, transformada (admiravelmente) em museu de arte contemporânea. Gostei da exposição temporária do momento (Thomas Ruff, o artista-fotógrafo), mas me decepcionei com a coleção permanente (o que estava à mostra era, sobretudo, "arte povera", um movimento italiano, forte nos anos 70, que compõe obras com restos e materiais humildes, achando e declarando que, com isso, ele criticaria, sei lá, o capitalismo). Manifestei minha decepção: não acho graça em obras que só nos proporcionam algum tipo de experiência à condição de sermos "instruídos" pelo discurso programático que as acompanha. Uma parte da arte contemporânea, aliás, parece existir para garantir a plena ocupação dos críticos, pois, sem seus comentários, as obras nos diriam pouco ou nada."

Contardo Calligaris, Folha de São Paulo, 13/08/2009



Escrito por por André Tezza Consentino às 08h21
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