Impressões de Viagem


Fazendo compras com Kant





A vendedora chega com uma expressão triste e me pergunta se o adesivo do Hospital Erasto Gaertner no vidro dianteiro indicava meu local de trabalho. Respondi que não — quando havia comprado o carro, dois anos antes, o adesivo veio junto. Pensei: não tirei por pura preguiça. Adesivos deixam aquela meleca branca que só sai com álcool e teimosia. Ela, ainda com a expressão triste, não pôde deixar de completar que o câncer, especialmente o infantil, é algo terrível. Por educação, também faço uma cara de comiseração e balanço o pescoço negativamente, como alguém que condena desesperançado uma doença monstruosa — mas, para mim mesmo, fico indagando se a moça realmente pensa que estou acreditando em alguma parte da encenação.


Provavelmente por ser publicitário, já sou vacinado a vendedores. Já vi os vídeos de motivação e as técnicas “vencedoras”. O segredo é o cliente achar que é seu amigo, alguém confiável. Quanto maior a compra, mais importante é o sentimento de amizade. E, para estabelecer contato, os vendedores se apegam aos detalhes sentimentais. Tem filho? Quando você tiver, vai ver, dá trabalho, mas é a maior maravilha do mundo. Ah... Já tem? Pois então, o que é bacana dos nossos carros é a preocupação com a segurança. E este chaveiro de Foz do Iguaçu — já andou por lá? Linda cidade, né? Gosta de viajar? E o teatro continua, sempre com sorriso nos lábios, sempre se mostrando do seu lado. Ela jura que vai batalhar, mesmo que seja uma guerra suja, pelo melhor preço. O gerente e a concorrência que se cuidem.


O que é incrível disto tudo é que, em geral, estas técnicas funcionam. Tenho certeza que a vendedora que me atendeu é a “líder de vendas”, a “funcionária exemplo” da concessionária. O que poderia explicar este “sucesso”? Um palpite possível é que o consumidor é alguém que, via de regra, está insatisfeito, sente falta de algo, sente-se incompleto, precisa satisfazer o seu desejo — em outras palavras, o consumidor é um sujeito carente. E o vendedor é a ponte de satisfação deste desejo, alguém que veio dar uma força, um tapinha nas costas pra você se livrar do superego e de qualquer culpa do dinheirão que está sendo gasto, perdão, investido. Enfim, um novo amigo.


Algum problema ético no comportamento do vendedor? Eis uma boa pergunta. Eu diria que sim, mas não pelo teatro, pela falsidade em si. Jan Kott, um ótimo pensador da dramaturgia de Shakespeare, afirmava que “O teatro é, por natureza, a representação de todas as relações humanas, e isso de maneira nenhuma por ser sua imitação mais ou menos bem-sucedida. O teatro é a imagem de todas as ações humanas porque a falsidade constitui seu princípio”. Fazemos teatro o tempo todo e, muitas vezes, se não na maioria das vezes, as intenções são boas. É um princípio de civilização, de uma convivência pacífica com o outro, com o diferente. Se, no aniversário, depois de receber a pochete horrorosa da tia carola, digo que é linda, maravilhosa, e vou começar a usá-la amanhã, bem, quem poderia afirmar que não estou fazendo teatro? Shakespeare sabia bem da importância da falsidade em nossas vidas e deu muita atenção à metalinguagem, ao uso do teatro dentro teatro — só para citar três peças famosas, o recurso está presente em Hamlet, Sonho de uma Noite de Verão e Ricardo III.


Mas, voltando à questão anterior, quando a vendedora apelou para as crianças com câncer, estamos em terrenos morais diferentes? Tendo a pensar que sim. E uma bela resposta vem de Kant — o que é quase uma redundância, pois citar Kant, além de ser chiquérrimo, é garantia de beleza em filosofia moral. Uma de suas máximas morais mais conhecidas afirma que “age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de outrem, sempre como um fim, e nunca como um meio”. Em outras palavras, quando digo para a tia carola que a pochete é linda, minha finalidade é o amor, minha finalidade é a própria tia carola. Já a vendedora, ao apelar para o câncer, usava de um artifício, de um meio, cuja finalidade era seus próprios interesses. Aliás, eu, naquele momento, não era um fim, mas um meio. A grande questão é que, por ingenuidade, alguém poderia pensar que havia verdade, compaixão nas palavras da vendedora (o que é muito diferente, por exemplo, das propagandas tradicionais, em que desde o início o consumidor tem ciência do que se trata), quando sabemos que o objetivo não é a amizade, nem a compaixão.


Há alguns pedagogos que defendem que as questões que envolvem o consumo deveriam estar presentes na escola, na formação básica. Sou amplamente favorável, mas não para “destruir a sociedade de consumo” ou levantar a bandeira de alguma utopia impossível. Se uma das funções da escola é entender o mundo tal como ele é, e se o consumo é uma das questões mais relevantes do nosso tempo, então estudemos o consumo tal como ele é.




Escrito por André Tezza Consentino às 22h19
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